18/01/2010

carta ao tempo

Tempo. Tu, sim, trato-te por tu, tu que és aquele que me comete e compromete, tu que te lanças no futuro comigo em sombra, tu que me destróis, tu que me constróis. Já te escrevi outrora, sim, é a verdade, e muitas outras vezes também das quais apenas nós sabemos, preservo-as na minha caixa negra, raro nome este, material na verdade o é, apesar de mentalmente obscurecer outros pareceres.
Sim, queixo-me novamente de ti. Talvez me queixe mais a ti do que qualquer outra coisa mas não vou dizer que sim ou que não, revê-te em ti mesmo e saberás. Tu, que me roubas a vida e me esqueces em qualquer outro lugar, devolve-me, por favor, o que outrora me tiraste. Obviamente, agora sofro com a perda, com o que me desesperadamente roubaste, roubo não sendo, mais uma dádiva, sendo que fui eu a pedir-to, e agora imploro-o de volta. devolve-me a peça que falta na minha vida. As janelas parecem-me agora espelhadas, todas, sem excepção, quando sei que o não são. Os carros têm os mesmos tons de cinzento e preto, não consigo diferenciar qualquer um. O meu espaço está subordinadamente gigante e não o percebo, não o quero perceber.
Vim-te dizer também que há algo que pedi para me tirares também mas que, porventura, não conseguiste. Há duas cores que não me roubaste numa só coisa: o verde e o dourado dela. Não percebo. Não consigo explicar. Não prometo o que digo, mas não me conseguirás roubar esta coisa que voltou a crescer em mim e aí está a razão, o seu crescimento. Não o previa, ninguém o previa, ninguém me veria assim, aliás, ninguém outrora viu, pois este cresceu mais que todos os outros juntos, e é pena não haver credibilidade para outrem desta afirmação, pois só eu e tu sabemos meu querido tempo. Deves já perceber aquilo que não me tiraste nem vais conseguir tirar mas ainda gostaria de te descrever a perfeição.
Sempre que vejo um relance dourado não é ele que brilha, sou eu. Não sei se é o reflexo de uma estrela, se é um raio de sol na minha pele, se é a minha alma a fugir de mim, só sei que não encontro maior beleza, e já ouvi dizer que cada pessoa vê uma diferente. Quando vejo aquelas bolas verdes com um pouco de preto centrado deliro, não explico como, mas deliro. Será o meu pensamento fraco, serei eu fraco, será o mundo forte demais, não me importo com tais insignificantes dúvidas, pois tenho momentaneamente a perfeição ao meu lado. E, obviamente, averiguo que é perfeito.
Mas quando não a tenho ao meu lado passo todo o teu corpo, sim, o teu, meu tempo, passo o teu corpo pelo meu e a minha alma roça o meu coração, é inevitável, e chora o meu lado esquerdo, e choro eu. E és tu que me atribulas tal facto, se não fosses tu a passar tão lentamente por mim, se não te importasses e corresses de mim, talvez eu sofresse menos. Não, não me contradisse. Quero mais e menos de ti, tempo, à mesma altura, quero mais de ti com a perfeição e menos de ti sem ela, é isso que te peço desta vez.
Já deves saber o que me roubaste mas eu relembro-te. Houve um dia nosso, eu e tu tempo, só nós, em que eu te perguntei se podia deixar de respirar. Tu disseste que sim. Quando o fiz actuaste e fizeste com que voltasse a respirar. Eu perguntei porquê e tu disseste que haveria alguém que me quisesse mesmo e que, até lá me roubarias, se eu quisesse, a cor da minha vida. Eu acenei com a cabeça e consenti a perda de tal. Mas peço-te que ma devolvas, encontrei esse alguém, encontrei a perfeição, não deixes que ela me abandone, devolve-me a cor.
Sem mais assunto, por agora, despeço-me, tristemente, de ti, meu tempo. Um dia destes volto a falar contigo a sós e conto-te como vou, só a ti, ninguém mais saberá, à excepção da perfeição, se esta aguentar ao meu lado (parece que somos de extremos). Espera-me, como o fazes a todos os segundos.


Não espero resposta e deixo saudades,

Hugo Martins

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