05/04/2012

piece of trash

O que será escrever? O que será aquilo que dizem ser “saber escrever”? Saber escrever é uma mentira. O escritor demonstra os seus sentimentos mas nunca diz serem dele pois tem vergonha da crítica. Pois eu, como escritor não sou, aqui os demonstro. Apesar de ser tarde demais, nunca o é quando se pede perdão por algo, e isso sim é a maior força que cada um tem em si, apesar de muitos a desconhecerem.



… e não, nunca tive a magnificência para descrever tais factos ou até de pronunciar tais palavras, também para que quereria eu ter tal mérito?, apenas me torno a mim próprio subterrâneo, a mais ninguém, mas a verdade é que a escavação, e o interior, o profundo que, talvez, obtenha de algo, alguma coisa diferente de um túnel que a isto nunca chega, sempre a meio e a todo o vapor de cima-baixo em corrente, me tornam igual ou pior a um animal que a luz não vê mas que só esta procura. A verdade é que nem me importo se a verei ou não, a verdade é que não me importa se responda ou não, a verdade é que pesa na consciência o que poderia ter sido e nunca foi. Seis anos, seis anos não são tão pequenos quanto isso, e cada um reescreveu novamente histórias sem parar, sem sequer parar para ler a sua história e a mostrar, e aqui estou eu a mostrar a minha, coisa horrenda tal que a mim me assusta, adivinho ou tento fazê-lo enquanto a outros, mas sempre deixando a minha de parte, pois essa melhor será ninguém saber.



 A eterna verdade, aquela que ninguém quer saber, melhor, querer quer-se tudo, mas sabe-se mas não se questiona, mas porém então… e assim giramos como sempre; é que a mentira disfarça o total e dá-lhe a certa aparência de que no todo não se toca sendo que este fora violado atrás, bem atrás no tempo. Não é fácil viver, mesmo dizendo isto com tão pouco tempo deste ditado que é o fado, mas certamente viver é mais fácil para alguns que para outros, talvez pelo seu modo excepcional de viver em retrospectiva, aguardando a velha idade em tenra mentalidade, e daqui se tira felicidade, porém nem todos têm tal capacidade e eu não tenho e por isso sinto que é difícil viver, retrospectivas ou não as razões que as tenha eu, e assim criei eu pensamento e de tal não o tiram pois ideia é a semente do que mais obscuro temos e que mesmo assim menos que uma moeda pesará que será essa tal de alma que todos procuram (pobre Faust que assim enganado morreu pelo que procurava e corrompia, corrompendo a sua e entregando-se à grandiosidade da leveza da pena – e que pena terá esta? –, não sabendo onde pousar procurando apenas a alma como sempre mesmo sequer sem saber onde a tem ou onde a encontrar). Se haverão mais verdades?, definitivamente sim, mas para que precisamos dela se sem elas vivemos, e mais, a corrupção entre todos torna-se quando mais verdades surgem, pois nem sabemos de onde viemos nem de onde nos fizeram, e só isso corrompe-nos o pensamento de ser ou não ser, eis a questão, mas será essa a questão? Que bom que seria ser retrospectivo agora e não me preocupar com isso.

 Embora verdade seja, de desculpas não passará. Seis anos. É uma vida, decerto! E que vida poderia ter tido, que participação dizimei na minha miséria de vida, ou seis anos desta, numa tal agendada rotina que tanto agora busco para mim, mas de rotinas eu nunca fui feito e sempre tal desvalorizei, até que me apercebo de que de rotinas eu serei senhor, ou estas senhoras de mim, e de tal não há como escapar. Por esta morrem, por esta matam, esta ou estas, por mim é-me indiferente, completamente. A verdade é que serei sempre o mesmo após de tanta difamação ou tentativa de corrupção, e se fora de mim ficar, a verdade aqui fica e daqui não sai, isto é a noção de que sou e serei interpretável ou pelo menos assim pareço, pois dois seres, dois locais, sempre dois, não é ser o que se é, é ser-se diferente do que se foi ontem e do que se será amanhã, and I rest my case. Mas dizem-me que tal não pode ser, que isso é errado e que não é fiável pensar assim, e que me importo eu se não me lêem como eu quero e sim como lhes der na real gana, que me importo eu que discutam comigo por ser quem sou quando tanta gente nem dizer como gostava de ser conseguem, sem revelar materialidades em sua função ou pior mostrar exemplos de algo que outro tem ou outro é para aquilo que se persegue, e sim isso é ser errado, e a partir daí basta de comigo discutirem pois acerca de mim eu próprio lido com sangue frio.

Nunca se concretizará, todos esses esforços para eu mudar, apesar de que por vezes bem queria que tal acontecesse, porém a essência será sempre a mesmo, apesar de todas as rotinas que se adicionem. E daí chego ao ponto focal ou crítico, como for preferido. A situação melhoraria, em termos efémeros, e do ponto de vista simplesmente humano, se tal me permito, clarividente se esses tais e tantos seis, tantos de longos como de curtos, de saudades como amarguras, não se tivessem passado não em si mas sim com o erro atrás causado.

É que ficava, de que modo fosse, corrigido, nas várias opções prioritárias que encontro apenas a duas posso atribuir relevo ou até talvez pensar sobre elas dado que a todas as outras abomino ou elas me abominam a mim, não sei bem ao certo; tais serão o remendo, como sempre existiu e sempre existirá, o pensamento do voltar atrás no tempo para fazer o correcto, ou o fazer não acontecer, não conhecer, olhar de lado, regurgitar no momento, algo que nem sei o que será e aí terminar com sofrimento prolongado que mil cartas a desculpar pelo amor que se carrega não chegarão para ver livre o empecilho no qual se caiu, a que prefiro eu não sei e talvez nunca saberei, pois o cérebro algo diz e o resto muito diz e o resto é maior que a parte superior mesmo que o peso da moeda lá em cima esteja a mim nada me diz respeito tal, mesmo assim, mesmo assim não derrota o resto, porém nunca o saberei certamente, penso eu, e continuo na dúvida existencial. Na verdade eu não queria estar a escrever, queria mesmo é correr, os quilómetros necessários, talvez quatrocentos nesta altura, para estar num sítio bem à minha medida, um sítio em que finalmente encaixasse como há seis anos não sinto que me encaixe, um sítio, mas sozinho? Não.

Contigo, claro. Se seis anos me distanciam do mal que fiz a culpa minha inteiramente será, porém mal fiz o erro, mal reparei no erro, ou seja, tudo, apesar do que se diga, fora, na altura, previsto, ao mínimo, que se torna agora máximo, detalhe, e eu, que o fiz, porquê um dia saberei, ainda não sei explicar porque desisti da rotina, porque nunca tentei, sequer, apegar-me, por menor apego que fosse, à rotina, à tua rotina, não o tornar-me perfeito para alguém, mas sim o saber que esse alguém tem defeitos, como eu, e não os poderá superar facilmente, e isso sim é uma virtude, uma luta a ser tomada contra algo, não o meu fugir gracioso, por mais que fosse, e perito nisso serei eu, uma virtude que se defeito lhe chamam abominarei a partir daqui o erro de quem chama assim e abomino o que fui pois a tal lhe chamei isso e erro meu declaro que por escrito dizem ter maior remédio, pois cá está, e verdade é esta que eu mudei nestes seis anos, e tu nunca viste; não te culpo, apenas a mim, e como já dito, porque fugi?, seria por medo a algo que nem eu sei o que será ou seria por querer experimentar o mundo sem que este não me desse a volta e nem soubesse disso, seria por saber que há melhor, mas para mim, e isso é que deve importar, e isso só agora vejo, para mim não há melhor, para mim era o máximo e do topo ninguém mais sobe. Eu correria sim, para ser esbofeteado em praça pública por algo a que já disse não e agora é tudo ao que digo sim e ao qual não sei fugir por mim pois em mais nada penso sem ser remediar, porém remediar é o erro e não o correcto, e novamente isso abomino, mesmo sendo o certo para o resto.

Para o resto, como força de expressão, é tudo o que fora de mim joga comigo próprio, é toda a palavra profanada contra mim. Mas dessa menor medo lhe calha, mas sim um sentimento de leveza pois força de espírito, e que força esta será que algo do peso de uma moeda lhe dá que nunca a terei nos braços que no mínimo pesarão o peso do cansaço que pesará o mesmo que eu menos o peso de uma moeda, que força esta não será que me empurra a escrever e a desculpar-me a mim mesmo sobre mim mesmo pelo que eu mesmo fiz a mim mesmo intermediando-te. Compreendo que seja confuso. Não tanto a parte do que eu me fiz, mas sim a parte do “tracinho te” intermediar algo. Porém erros literários sempre existirão. Não é de fácil explicação o facto de seres apenas intermediação de algo, nem eu sei se nas minhas totais capacidades de professor ambíguo conseguirei fazer com eu se entenda a razão de ser eu apenas o escravo da culpa nestes termos quando também houve da outra parte severos erros aos quais não posso punir, porém era da minha total responsabilidade tentar encontrar alternativas, responder a adversidades e contrapô-las ao meu ser vendo quais seriam as alternativas certas e quais seriam as erradas, e tal eu não fui capaz de fazer, daí ser eu o que se leva a desgaste e tal eu preferir. Continuando, não sei se conseguiria explicar algum dia o que fiz sem ter a leveza de espírito que há seis anos não tenho e talvez nunca terei e que ciclo vicioso se cria aqui que sou eu quem perde o que ganhar quero e em que ganhar é tudo o que queria mas perdi as forças para tal, ficando sempre a perder algo que nunca saberei se conseguiria ganhar, entretanto ganhar não poderá ser dito pois coisas destas não se ganham nem se perdem, acontecem uma vez na vida e tolos seremos se tal deixarmos escapar, pois tolo sou eu que não deixei escapar mas sim pedi quase que por favor para escapar e mais tolo ainda sou por me continuar a desculpar a mim mesmo, tentando explicar-me-te-me, se me percebes, sem nunca conseguir explicar nada a ninguém, e fico a concha vazia que sou neste momento e daqui não saio, pérola não tem, pedra rara deixou escapar, jaz em absoluto silêncio no mar e bem no fundo deste, até vir à superfície, lamuriar a perda da pedra preciosa e voltar às profundezas, com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Pobre concha.

Da minha vida, e de todos os erros, este será talvez o que mais respostas requer e aquele ao qual menos respostas obtenho. É difícil lutar contra o que se é mas mais difícil é lutar contra o que se foi, pois já não se é assim e ninguém aceita uma segunda oportunidade para tal demonstrar, pesar do que se diz, e isso é compreensivo. É altamente nocivo aceitar-se uma segunda oportunidade, pois poderá vir o mesmo e a mesma maneira de pensar pode ser pensada, e os mesmos erros novamente causados. E acaba-se tudo. Automaticamente acaba-se, nem se apercebe que se acaba quando realmente se vê que acabou. E a mesma questão sobressai, então quem falhou ou o quê ou quando ou como ou com quem ou, tantos “ou”, tantas questões, às quais prefiro dizer que fui eu, pois realmente, quase por inteiro o fui, e os “ou” divagam e tornam-se difusos pois eu não procuro resposta ao que fiz nem desculpa nem um olá novamente nem nada desses termos. E retomo o inicial. A eterna verdade é a mentira, é simples. E daqui se partiu para tudo. Porém ninguém se apercebeu que quem mente se sai mal, não em frente a outros, mas sim consigo, e eu menti ao dizer que nada havia, que nada teria, que nada mexia, pois essa mentira carreguei-a estes seis anos e tornou-me pesado, e cada vez mais a moeda pesa em cima, torna-se velha ou enferrujada, eu lá saberei, torna-se algo que nunca fora e que alguém a fez tornar assim, e esse alguém é o profanador da mentira que fez com que pesasse e com que com ela convivesse, pois verdade tivesse dito mesmo que mal parecesse na altura, bem seria agora que o fado continua e a leveza adquirida desvanece – e porque só verei eu moedas agora? – em qualquer um, em mim principalmente pois fui o profanador. E tal carrego.

E novamente, desculpa. E isto porquê? Porque, em primeiro lugar, não sou coerente ao escrever-te, em segundo lugar porque sei que prosseguiste a tua vida e eu deixei seis anos a pensar em ti como quem deixa uma caneta em cima da mesa e a vai buscar duas semanas depois, e em terceiro lugar por te pedir que leias e que tentes perceber que, afinal, o erro não era teu, sempre foi meu. Estranhamente, o teu nome completo vagueia na minha cabeça, como o teu número de telemóvel, e sinto-me triste, pois esses a minha memória não apaga, ao invés de tal, apaga-me a mim.
...e qualquer dia sou uma concha, pois pérola eu já não a tenho. Um dia serei eu, um dia serei eu no fundo do mar; antes que aconteça, aqui está a minha despedida.

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