Este é o último texto deste ano e, possivelmente, o último
texto, quem sabe. Mas será um texto no qual ficará tudo, tudo mesmo sobre o que
está aguentado e exerce a pressão obrigatória para sair. Finalmente terá o seu
fim. Por puras coincidências que hajam aqui reflectidas serão, simplesmente,
elas próprias, ou seja, coincidências e porquê isto, porque certas pessoas rever-se-ão
nesta fracção de vida mas, decerto, quanto mais se virem nela, menos nela estarão,
e essa é a verdade, portanto, para quem ler, e muitos não serão, pensem bem que
não é para vocês, sempre. E, antes de tudo mais, peço desculpa por desabar com
tudo o que está escondido desta maneira, de outras maneiras não consigo.
Começo por explicitar a quantidade de anos que recuo. E são
quase onze. Daqui vem o maior arrependimento da minha vida, o de não ter visto
o que devia e o de saber coisas que não sei pois não as presenciei. Todos os
homens em pelo menos uma ocasião na sua vida dizem que homens não choram, pois
eu discordo e, se errado for, eu sou dos maiores traidores desta crença e por
isso desculpa não peço. Porém, não chorei todo o dia da ocasião. Nem no dia seguinte,
porventura, o dia do real acontecimento, chorei. Mas então e à noite? À noite,
quando a minha irmã me pergunta se estou bem eu responder não soube, e então
pensei, será que estou bem?, e daí apercebi-me que penso, e pensei novamente,
porque não pude ter o visto no passaporte para dar a entrada no cemitério onde
esconderam a vida que me deu vida e porque não sei eu o que realmente
aconteceu?, e aí chorei, chorei pela vida que estava para trás e pela vida que
tinha pela frente. Morrera a minha avó e morrera aquele local, nada nos prendia
lá e nada nos prenderia, mas será que este nós me incluía ou me excluía desde
sempre? E começa aqui a minha jornada de eventualidades tristes, por vezes, por
outras, felizes, ganha força e ergue-se tal qual o nevoeiro matinal de D.
Sebastião.
Chegado a algo que não conhecia de vida antes, apenas de
vista não vivida, pura memória nostálgica, tentei, com todas as forças
adaptar-me aos relevos de uma nova maneira de ver a sociedade e os seus incógnitos
porquês, uma maneira de começar uma nova vida, mas perguntava-me porquê começar
o que já teria mas pergunta a lado nenhum leva e a vida surgiu sem que talvez a
tivesse pensado ou estudado, apenas se formou por si. E daqui baixei o
rendimento escolar (mais que uma criança não era, impossíveis a estas não se
pedem!) e a ser o alienígena em algo que não precisava de mais alguém. E assim
passei um ano e meio, até que me questiono novamente acerca da vida, desta vez
já sabendo o que seria e o que acontecia. Foi em época de exames ou perto desta
que a tragédia aconteceu, sem que ninguém pudesse esperar por ela. Foi assim
que conheci a morte, o que proporciona, como se forma e o que atenua, como mexe
com o ser humano. O caixão era branco, pureza de alguém com apenas doze anos de
vida mal volvidos, de mente vívida e mexida, e o sentimento era negro, mais
negro que os recônditos das cavernas, e aqui percebi porque não presenciara o
anterior, em que o caixão seria, talvez, castanho-carvalho francês, cor do
género, pois o negro aí extrairia qualquer luz que visse. E deparei-me com um
abismo que estaria tão perto de mim quanto eu o quisesse ter, e resolvi a nunca
o esquecer, lembrando-me, porém, que ele sempre ali estará e que talvez seja a
minha maior arma contra algo que eu bem não sabia.
Mais um novo ano, mais um novo percurso, desta vez um início
totalmente diferente, onde integrado já estava. Seria verdade isto?
Psicologicamente instável na altura, decidi-me a escutar
mais, a envolver-me, a deixar-me levar pela razão e menos pelo meu ser. Tornei-me
no marrão sem o querer, mas algo teria que ser. E as defesas criam-se nestas
situações. Nascera aí a arrogância, a defesa mais fácil contra a verdade e a
mais básica de aplicar sem tentar contradizer o meu ser, logo, a chave dos
desprotegidos, dos que pensar não querem e daqueles que nem levam nem levados
são. Tornei-me numa parte inicial de um ser. E assim fiquei três anos em que
convivi com os melhores e os piores, foi o percurso inicial ao que sou hoje,
inicial pois foi aqui que desenvolvi o que a seguir ao básico vem e que de nome
carece mas que, entretanto, é das partes mais vitais de todos nós. Não haverá
muito mais para dizer nesta altura, apenas agradecer ao desporto do qual sou aficionado
que me ajudou em tudo e se tornou o meu maior amigo.
Entra, agora, o secundário. E é aqui que me revelo como
pessoa. Novos contactos, muitos marcaram, outros nem tanto, mas sempre os
recordarei. Mas prefiro falar de uma professora, que foi mais que isso, foi uma
mentora para o que sou, e valor sobre isso terá até que o que sou morra de
morte em si ou morte mental ou morte qualquer que seja, o que for. Entra aqui a
pergunta, mas afinal que sou eu senão o desperdício de carne e ossos num saco
chamado por alma?, e a resposta é simples até, o saco são os ossos, bag of bones,
e não a alma, como diria antes, mais perguntas sobre isso será o que sou eu e
isso todos têm que adivinhar em si e não saber por um outro qualquer pois
valores são diferentes e mudam constantemente de persona para persona. E apesar
de apenas um ano estar com a minha mentora, ensinou-me que a arrogância não era
o caminho a cimentar, apenas um meio para esse caminho, e o mais importante
nesta é que não seja deixada para trás mas sim utilizada em ocasiões
vitalícias, como numa simples pergunta em que seria eu um Homem ou um rato, à
qual penso ter respondido da melhor maneira possível, abandonando a sala à
segunda vez que pronunciara essas palavras, e é a isto que respeito deverá ser
dado, doado, vendido se tal puder ocorrer, são estas perguntas que formam o ser
e que deixam ser o ser de ser ser. Confuso? Talvez, mas verídico.
Porém não entendi tudo inicialmente, e fiz uma vida anormal
um certo tempo, sem me compor de actos, metendo-me novamente em factos que pior
me deixariam, e factos actos chamemos, actos estes que me arrependo,
principalmente, no ano a seguir ao abandono da minha mentora.
O meu percurso não era regular, era inconstante, retirando o
facto das amizades fortes permanecerem uma charneira do que era até ali. Porém,
o que um dia poderia ter sido tudo, tornou-se o meu maior arrependimento na
vida e, até hoje, não esqueço esse arrependimento. Pois é, no ano de 2006, se
em erro não estarei, perdi parte do que hoje poderia ser eu. Conquistei essa
parte de forma inóspita, o que me levara a pensar se conquistara ou não, tal
como todas as outras conquistas do género foram até ali, pois aquela parecia-me
nova e impossível, mais que as demais atrás. E por isso fui estúpido ao ponto
de a ver partir de mim, a abandonar-me por culpa, principalmente, minha, e eu
nada fazia. Acordei tarde demais, apercebi-me que poderia ser tudo quando o
nada pela outra parte já era, e tornei-me vazio, procurando reconquistar o que
para sempre fugira. Hoje peço aqui desculpa por isso, pessoalmente e
publicamente, e possivelmente pedirei para passar por aqui para ver este
pedido, apenas dizendo que nunca deixei e nunca deixarei de pensar no que
sucedeu, nunca.
E acordei.
Acordei antes de catástrofes acontecerem, fiz e refiz amizades,
umas mais fortes que outras, e muitas dessas ainda hoje aprecio e digo a essas
pessoas que as amo. E apenas um ano estive com elas, ano em que continuei o
modo de vida que tinha. Entra agora em jogo a decisão profissional vindoura. Até
aqui a família foi pouco referida, pois sempre tomou o meu lado em qualquer
escolha que fizesse. Porém, nesta altura, houve divergências. Muita coisa ouvi,
muita coisa guardei, muita coisa eliminei, a verdade é que poucos apoiavam
aquilo que queria e muitos, maioria absoluta, contrariavam a minha expectativa
de futuro. Entretanto segui o sonho e vivo-o intensamente todos os dias, a
veracidade de me tornar um jovem arquitecto. Não o faço para fazer ver a
ninguém pois assim me ensinou a minha mentora, arrogância zero, apenas para me
revelar quem realmente sou, diletante de palavra, nobre de sentimento.
Após entrada o ritual de sempre, novos amigos, novas
personalidades, novas escolhas. Desvendei, descobri e defendi a minha oposição
certa à descoberta o grupo problemático entre colegas e hoje admiro-me por isso
pois, se continuasse a ser como era, apostando na arrogância, seria eu parte
desse grupo, talvez até o cabecilha. Mais um agradecimento à minha mentora, que
nada lhe escape de vista sobre a sua filosofia e que continue a conjugá-la com
a psicologia que a capacita de tudo.
Antes de acabar, pois mais não falarei, gostava de
explicitar o sentido deste blog. Não sou eu que escrevo neste blog, ou melhor,
sou eu, mas não sobre mim, e sim de problemas que talvez maior parte de nós,
população, tenhamos. Não sou especial por isto, mas talvez o seja por tentar
conjugar estes com pequenos fragmentos ideológicos sobre algo que não sei se
será o correcto ou não, daí perguntar-me se o que escrevo é para x ou para y é
o mesmo que perguntar a Saramago se escreveu o evangelho segundo jesus cristo
depois de falar com este, ou a Pessoa se alberto caeiro sabia que pensar até
pode ser bom, pois estes não são reias no hoje destes dois escritores. Logo não
sou eu que tenho estes problemas ou pensamentos, é toda a gente, apenas os
revelo de diferentes maneiras, e esta para mim é a mais indicada. Porém, talvez
tenha chegado ao fim. Faz-me bem demais pensar nos meus problemas sendo
problemas de todos, e o que me faz bem não me muda. Talvez seja o fim deste
blog. Ou talvez não, quem sabe. Quantas mais dores de cabeça tiver mais
headaches publicarei, quantas mais vezes chorar mais me revoltarei, quanto mais
me passarem melhor intermediário serei. E voltamos à charneira da vida… ser ou
não ser, eis a questão!
Obrigado por me aturarem, obrigado por tudo. Um bom ano a
todos, um bem haja e um até já…



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