11/03/2014

memórias de um abandonado

quantas vezes já te tentaste definir? escrever ou pensar algo sobre ti que sejas mesmo tu, que seja a tua impressão digital? quantas vezes já repassaste os teus defeitos pela cabeça e prometeste tornar-te melhor? e será que isso te melhora ou que irá impressionar os outros? quanto mais te atormentas mais te afastas, o que é pior e, ao mesmo tempo, mais de ti se afastam. mas uma coisa é certa, é melhor teres noção do que és do que viveres iludido com algo que pensas que és e que tal seja uma faceta do oposto da tua verdade. mas será que deves aceitar tudo?

quando inventaram convenções sociais para uma classe tão abrangente como a população humana simplesmente descartaram o domínio da inteligência e da personalidade das opções de classes. um operário sempre será um operário, um político sempre será um político. este erro é tão grosseiro como dizer que dois mais dois são quatro, erros grosseiros que parecem estar correctos mas nunca estarão, não é permitido que seja, tanto pelas leis da natureza como pelas leis humanas. é a partir deste ponto que tudo se complica, todas as origens são abandonadas se assim se pensar, e fica-se sem qualquer base na vida - queda-se a utopia para acompanhar o pensador.

se o acaso nos escolhe para seguirmos tal caminho, nascer em tal sítio, ser qualquer coisa, será que também é o acaso que dita as nossas escolhas? ou seja, provar que conhecemos alguém porque assim o quisemos não é fácil ao ponto de o provarmos completamente, há sempre o âmago interno de não saber os porquês que todos têm e mantêm sem nada dizer a ninguém nem explicações plausíveis dar; porém, para deixar de me dar com pessoa x ou y - para isso preciso de razões, ou simplesmente será o acaso? mas mais pragmático ainda, se não conseguimos o que realmente queremos de alguém por um acaso - e aqui sim, ele está presente - será por esse mesmo acaso que desistimos de procurar isso nesse alguém?

e é aqui que interrompo o pensamento. há duas hipóteses, continuar a afirmar que o acaso é culpa de muita coisa e começar a negar e a propor que podemos voltar atrás, não como um "bending" einsteiniano mas sim numa forma metafórica, tentar conseguir o que se não conseguiu.

disseram-me há muito tempo atrás que tudo começa num olá, continuo a achar verdade, mas até sair esse meu olá tenho que perceber porque nunca o tive. para caminhar tens que gatinhar - para falar silencioso deves estar.

será obra então do acaso alguém voltar atrás? ou realmente controlamos o que somos?

e se realmente controlamos o que somos porque é que não falo? porque, se calhar, tenho medo que o meu olá atinja quem acredite no acaso em toda a sua forma. se isso é desculpa? não sei, mas será que essa pessoa foi escolhida ao acaso, ou só eu sei o que ela significa e nem ela o saiba?

afinal de contas, o acaso nunca será provado como comandante ou comandado, simplesmente pelo facto de escondermos tudo o que de mal há em nós atrás dele. e é exactamente por isso que abandonado é abandonado, tem medo de ser acompanhado, acomodado está ao que é, será sempre o abandonado.

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