09/11/2011

(in)conscientemente em casa

Queria expressar o que sinto, queria mesmo.
Mas hoje não é a minha vez.
Hoje é a vez de alguém que precisa mais que eu de se expressar. É o meu inconsciente; portanto tudo o que se seguir não será da minha autoria.


Não sei como foi nem quem foi, só sei que vem ter comigo de certeza e vai recair em cima de mim, tenho a certeza disso e isso era o que eu não queria mesmo nada mas quem bem faz mal atrai e mal vem mal vai e quem de mau tem muito de mau dá pouco e o mau fica dentro e torno-me num buraco negro de emoções e já nem sei quais são as reais e de repente tanto quero desaparecer do mundo como quero voltar àquele lugar que tanto quero ir mas resisto e não vou e caminho lentamente ao sabor da chuva a cantar o mais alto possível porque é assim que a vida deve ser levada, porém este canto é um lamurio mas eu não me importo porque não quero saber o que se passa à minha volta apenas me quero definir e voltar onde esteja o ponto zero ou ainda melhor, tornar-me mais e mais ainda e é assim que todos os dias tenho passado sem saber bem o que digo mas depois também posso falar do estar cansado, realmente muito, e assim passo, eu, os meus dias, grandes dias, pequenas noites mas grandes dias, cansado, arrasto-me, por aí, mas não importa, porque depois, volta a força que me leva e me agarra não sei para onde ir e volto à chuva e canto a gritar sem que ninguém perceba bem porque a rua está vazia mas isso talvez seja falso e eu é que o veja assim mas ainda não pensei sobre isso apenas me veio essa luz agora e depois chegaria a casa mas não a minha mas afinal sim é à minha porque não irei a casa alguma que minha não seja e sejamos metafóricos por assim ser e volto a ficar cansado, tão cansado, e paro, e volto, repentinamente, a parar, e pensar, será que vale a pena, parar, no meio do vazio, que é o buraco negro, que sou eu, e as minhas emoções, e depois volta, a adrenalina de fugir deste mundo e percorrer todo um subterrâneo e todo um universo paralelo em que renasço da cinza da qual acabei de me tornar e depois esvoaço outra vez mas isso é sempre assim e todos são assim não sou só eu e como eu não sei como ser volto a casa e em casa perguntam-me novamente o que tenho e como estou e como está esta casca aqui fora que só serve para escrever o que estou a pensar e depois volto a mim e digo não se passa nada e a partir daí fico cansado, intensos momentos, fatigam qualquer alma, mas já não sei do que é, mas o que eu acho, é que vou voltar a dormir.


Agora, tirem o que precisam, curiosidades, tudo o que quiserem, o resto deitem fora, eu não vou reler. Exausto, completamente. Agora a minha explicação.


Que faço quando a parede que está em cima de mim, à qual eu chamo tecto, se abate sobre mim e me esmaga no chão? Que fazer quando a parede por baixo de mim, à qual eu chamo chão, me esmaga contra o tecto como se um elevador me esmagasse contra uma cortina de betão? E que fazer quando não há mais paredes, às quais eu chamo casa, abrigo, calor, amor, lazer, querer, temer, jogar, brincar, sofrer, falar, voar, cair, chorar, sorrir... enfim, sentir?
Quando Ícaro se derramava pelos céus até embater no betão duro que seria a água do mar Egeu que sentiria o seu pai que, aos prantos, prosseguiu para a costa siciliana? Que voz dentro dele foi morta só "porque sim" e porque um sonho falou mais alto? Que figura, seja cristã, ateia, mitológica, o que seja, deseja ver o que precisa no momento, cair em pedaços e desaparecer para o nunca ou para o sempre? Qual é a dor do sempre? E a dor do nunca?
Aqui vai a diferença sentida.
A dor do sempre é aquela em que sabes que o que fizeste é errado, que o que fizeste não devias ter feito, que o que fizeste é algo que vais repugnar.
A dor do nunca... é pior, simplesmente é saberes que fizeste mas não fizeste, que foi mas não foi, que era mas não era, que seria mas não será.
A partir daqui, que sentiria Dédalo, ao ver Ícaro cair, por seguir um sonho e não as suas indicações? Sentia o fim do mundo, sentia o adeus, sentia o mar, o céu, a ira divina, a vitória derrotista ou a derrota vitoriosa?
Nenhuma delas.
Sentia falta da sua...
...casa.

Sem comentários:

Enviar um comentário