o ser e o existir correlacionam-se ou, pelo que se diz, estão ligados até ao mais ínfimo detalhe. provém daqui o sentimento humano de que tudo tem finalidades, tudo se une e funde num espaço-tempo que talvez ninguém perceba sequer que é irracional e que, na verdade, não existe (destinos?). se não existe poderá ser? o que existe é? o tempo existe mas é-o em mim? ou será que me afecto tanto ao seu toque se existir que o deixo ser? poderá metaforizar-se esta questão?
eu não sou uma pessoa - nem gosto delas!
eu sou um lago, nasci como tal, quando as águas transbordaram de dois rios e de fundiram num pequeno espaço aberto em buraco, deixando lá um depósito aquático a que posso chamar o meu ser. deixei que transbordasse para gritar a minha dor do afastamento do útero do meu rio, coisa que não me lembro - não consegui ver à superfície porque era as águas do fundo e as águas que realmente viram transbordaram... mas que gritei, ah se gritei, todos os lagos mo contam! como reverberava a minha água nesse dia! e tantos dias assim foram passando sem que me apercebesse deles! até que assentei por completo nos vácuos de terra deixados por forças exteriores à minha e, com força e vontade, deixei as profundezas (lentamente) para ver o que me rodeava à superfície.
os rios continuavam a meu lado, com os seus leitos correntes, mas já desprendidos, já resfolegando de uma longa vivência, e eu ia percebendo o que acontece à minha essência. pequenos lagos escoavam, estendiam-se, aprofundavam, pequenos charcos evaporavam, desapareciam, deixavam apenas a terra sacudida pela sua existência que o vento levou - até que me atormentou a mim.
vento, culpo-te a ti! juntas rios para apenas os apartar, deixas-me ver uma paisagem se folhas em ramos e destes em troncos e destes em terra e desta a alimentar-se da minha própria água e levas-me a seguir para o extremo oposto, para o betão sedado gentilmente à calceta, desta prendida à terra, esta olhando para o meu vazio cada vez mais socalco temporal, e retrais-me sempre a essas paisagens! às vezes podias-me dar paz... mas será que a desejo ou a minha água estagnará? culpo-te ou agradeço-te?
mas vento, culpo-te a ti! levas-me a ilhas onde encontro lagos em que quero permanecer e afastas-me rudemente destes, mesmo quando eles se preparam para vir comigo - e tu não deixas! mas depois será que dois lagos resultariam em conjunto? fica o desejo de saber...
afinal culpo-me a mim... porque cada vez mais aprofundo e torno-me caudal... e nem o percebo. os rios cada vez mais se desprendem e eu cada vez menos os sinto - já não lhes toco apesar das tentativas de ambos os lados. sinto que a terra em meu redor revolve, deixando-me trespassá-la - talvez até atormentando-me para o fazer - e sinto que cada vez mais há novas paisagens para eu ver. o vento leva-me a algumas mas mantém outras silenciosas, esperando atentamente o meu caudal desabrochar algum dia.
algum dia? mas o dia não me fará nada! fartei-me de encher nas chuvas de inverno! fartei-me de transbordar nas chuvas de verão! fartei-me de estar estagnado! tenho que pedir ao vento que me leve sobre a terra novamente. vento, eleva-me a rio!
e, de repente, algo me toca. vejo-o nas minhas partículas húmidas. vejo as cinco folhas e as suas sombras trespassarem-me sobre o sol de verão. vejo a quina que criam. e vejo algo do futuro... mas quanto mais espero mais me arrependo de o ter visto. as folhas continuam em mim, a percorrer alegremente os meus contornos, sempre em forma de quina portuguesa, esperando pelo estilo pessoano e por este ser real... mas até ao dia de hoje nem vi o novo império nem o vento me levou a conhecer nenhum tipo de sebastianismo...
e eu continuo a tocar tudo à minha volta. acordo, encho-me de tédio e, dia após dia, fico mais profundo, cresço mais rápido... acho que começo a ver um montante e um jusante... até que um dia chegue a ser charco e que, sendo o vento tão frio de sentimentos que eu transbordo, chegue a secar, acabando assim por deixar apenas o rasto de terreno que algum novo lago virá a preencher.



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